Batalha Interior


Vi-me descendo por uma das estradas da favela, pela claridade ainda muito tímida, suponho que a madrugada estava em seu fim. Contudo, isso não fazia a menor diferença. Não era a primeira vez que passava por ali durante o sono físico, o local estava sempre permeado por um ar carregado, envolvido por uma espécie de luz ou neblina cinzenta. Durante a descida vi pouquíssimas pessoas, umas delas se dirigiu a mim amigavelmente perguntando quando eu aparecia por lá novamente. Ainda estava confuso, sem consciência do que de fato eu fazia, porém intuitivamente sabia a que lugar o rapaz se referia. Respondi, sem cessar os passos, acenando e sorrindo.

Instantes depois parei em frente a uma residência comum, sem nenhuma característica singular que a destacasse das demais. Parado, senti presenças cujas identidades meu coração logo identificou, mas por diferenças vibratórias eu não pude vê-las. Mais confiante, sem no entanto saber exatamente o que eu estava fazendo ali, observei um rapaz vestido todo de branco vindo em minha direção, um rosto conhecido, muito familiar.

- Vem! - disse ele sorrindo, me convidando para entrar.



O ambiente interno tinha apenas um cômodo, ligeiramente retangular, como um corredor curto com paredes mais afastadas. No fundo, na parede oposta à porta por onde entrei, havia um homem sentado numa poltrona grande e confortável. Alto, esguio com semblante sisudo e um leve sorriso no canto dos olhos. Ao me aproximar, perguntou:

- Você queria conversar comigo? - disse ele, sem floreios.
- Não sei... queria? - respondi sem jeito, pois de fato não me recordava de solicitar nenhum encontro.

Percebendo minha surpresa ou esquecimento, o homem - que eu já havia compreendido ser um exu - com sua peculiar objetividade, continuou:

- Está pronto para a guerra? - a pergunta veio seguida de uma gargalhada típica dos exus.

Não respondi com palavras, mas olhando fixamente para o meu interlocutor, pensei comigo mesmo num átimo de segundo... "transição planetária, fim dos tempos, autoconhecimento..." Eu sabia de antemão do momento espiritual delicado pelo qual estamos passando. A primeira guerra -a mais decisiva - é a nossa batalha interior, mas há outras se intensificando, o astral inferior está agitado, o mundo físico turbulento... Para um bom entendedor...

O exu deixava que eu digerisse aquelas ideias, sabendo que eu tinha certa consciência do significado daquela pergunta.

Continuei parado, ainda sem saber o que dizer, inseguro, mas certo de que não havia outra saída senão ir para batalha, sem medo, começando por mim mesmo.

- Você está muito bem - e com um gesto suave apontou para meu peito - veja você mesmo.

Abaixei a cabeça e vi um raio de luz azul claro saindo do meu coração em direção ao infinito. Neste momento senti com mais força os amigos invisíveis... o mestre da luz dourada e a guardiã dos meus passos, mas havia mais alguém.. olhei para trás e vi sorrindo, vestido de branco e envolvido por uma tênue luz branca...

Abri meus olhos físicos, mais um dia de batalha!




Rascunhos no Tempo


[...]

"Ele está pronto", disse um deles.
"Pronto para o quê?", pensei comigo mesmo, tranquilo e curioso.

Naquele instante fui levado a uma sala cuja arquitetura destoava daquela existente nos cômodos que tinha visitado até então. O local era amplo, teto alto com paredes de vidro, com estrutura futurista, porém sem luxo ou exageros, dotado de simplicidade meticulosa que tornava o ambiente bastante agradável.

Lá dentro vi mais duas ou três pessoas que se vestiam igualmente ao meus acompanhantes, todos me observavam com olhares amigos. Além delas pude sentir outras presenças, as quais não consegui enxergar, apenas entrever intuitivamente. Estas companhias invisíveis tomaram a frente do pequeno grupo que me conduzia. A companhia de todos, visíveis e invisíveis, não era estranha, havia um ar familiar, um carinho, uma amizade que me deixava calmo e confortável, fazendo com que eu os seguisse sem medo ou insegurança...

À minha esquerda haviam mesas retangulares com cadeiras dispostas de forma muito bem organizada, não eram muitas, no máximo 20. Não tinham paredes separando o ambiente no qual as mesas estavam do restante da sala futurista, a única diferença é que ficavam um degrau acima do nível do chão. Parecia um tipo de laboratório, sala de aula ou biblioteca.
Não sei se por impulso próprio ou pela força carinhosa dos meus acompanhantes, fui atraído para uma mesa específica que ficava na última fileira. Sobre ela havia muita poeira e um livro ou caderno, parecia que seu dono não a utilizava há tempos, e por respeito a ele ninguém mais também mexia nela. Era a única naquela situação, a única suja e aparentemente abandonada.

Já bem próximo da mesa senti algo estranho e ao mesmo tempo familiar... confuso e emocionado tive a certeza de que aquele lugar era meu, a mesa com o caderno/livro eram meus! Um passo atrás de mim vi intuitivamente meus amigos - sim, eu já tinha os reconhecido assim - homens e mulheres se uniam em um abraço ansioso esperando minha reação... ouvi uma voz me incentivando a abrir o caderno/livro e ver o que estava escrito, o que eu havia escrito.

"Veja, você escreveu algumas coisas para explicar..."

Ao folhear aquelas anotações senti que de alguma forma eu não era mais eu, porém me sentia completo! Senti minha personalidade atual, meu nome atual apenas como uma parte de uma jornada longa. Dentro de mim milênios, quem sabe milhões de anos, se passaram num átimo de segundo. Não era mais eu mesmo, porém não deixava de ser quem eu sou.
Ali parado, pensativo e emocionado, estava limpando a poeira do meu passado, resgatando a parte do meu ser que havia abandonado. Mas ainda há muito por caminhar, infinitas páginas em branco esperam para ser escritas. Como um analfabeto do espírito sigo aprendendo a escrever, melhorar a caligrafia do meu coração até que um dia eu deixe de ser apenas um errante do tempo e me torne um poeta, um filósofo na Eternidade...

O Perceptível Oculto

O pensamento não está no cérebro, assim como o sentimento não está no coração.
A razão, a sensibilidade e o entendimento são inerentes à natureza daquilo que verdadeiramente pensa, sente e compreende. Deste modo, as mais belas e profundas palavras não falam simplesmente, elas saem do íntimo de quem as profere e tocam o todo de seu interlocutor. Palavra, portanto, não quer significar apenas a verbalização de sons ou a concatenação de símbolos gráficos, mas toda e qualquer forma de expressão do ser, por conseguinte, tudo aquilo que exprime a essência eterna e imortal do ente vivente.