Rascunhos no Tempo


[...]

"Ele está pronto", disse um deles.
"Pronto para o quê?", pensei comigo mesmo, tranquilo e curioso.

Naquele instante fui levado a uma sala cuja arquitetura destoava daquela existente nos cômodos que tinha visitado até então. O local era amplo, teto alto com paredes de vidro, com estrutura futurista, porém sem luxo ou exageros, dotado de simplicidade meticulosa que tornava o ambiente bastante agradável.

Lá dentro vi mais duas ou três pessoas que se vestiam igualmente ao meus acompanhantes, todos me observavam com olhares amigos. Além delas pude sentir outras presenças, as quais não consegui enxergar, apenas entrever intuitivamente. Estas companhias invisíveis tomaram a frente do pequeno grupo que me conduzia. A companhia de todos, visíveis e invisíveis, não era estranha, havia um ar familiar, um carinho, uma amizade que me deixava calmo e confortável, fazendo com que eu os seguisse sem medo ou insegurança...

À minha esquerda haviam mesas retangulares com cadeiras dispostas de forma muito bem organizada, não eram muitas, no máximo 20. Não tinham paredes separando o ambiente no qual as mesas estavam do restante da sala futurista, a única diferença é que ficavam um degrau acima do nível do chão. Parecia um tipo de laboratório, sala de aula ou biblioteca.
Não sei se por impulso próprio ou pela força carinhosa dos meus acompanhantes, fui atraído para uma mesa específica que ficava na última fileira. Sobre ela havia muita poeira e um livro ou caderno, parecia que seu dono não a utilizava há tempos, e por respeito a ele ninguém mais também mexia nela. Era a única naquela situação, a única suja e aparentemente abandonada.

Já bem próximo da mesa senti algo estranho e ao mesmo tempo familiar... confuso e emocionado tive a certeza de que aquele lugar era meu, a mesa com o caderno/livro eram meus! Um passo atrás de mim vi intuitivamente meus amigos - sim, eu já tinha os reconhecido assim - homens e mulheres se uniam em um abraço ansioso esperando minha reação... ouvi uma voz me incentivando a abrir o caderno/livro e ver o que estava escrito, o que eu havia escrito.

"Veja, você escreveu algumas coisas para explicar..."

Ao folhear aquelas anotações senti que de alguma forma eu não era mais eu, porém me sentia completo! Senti minha personalidade atual, meu nome atual apenas como uma parte de uma jornada longa. Dentro de mim milênios, quem sabe milhões de anos, se passaram num átimo de segundo. Não era mais eu mesmo, porém não deixava de ser quem eu sou.
Ali parado, pensativo e emocionado, estava limpando a poeira do meu passado, resgatando a parte do meu ser que havia abandonado. Mas ainda há muito por caminhar, infinitas páginas em branco esperam para ser escritas. Como um analfabeto do espírito sigo aprendendo a escrever, melhorar a caligrafia do meu coração até que um dia eu deixe de ser apenas um errante do tempo e me torne um poeta, um filósofo na Eternidade...