Do sensível ao inteligível

  
O ser humano como criatura pensante tende sempre a buscar o sentido das coisas, por conseguinte não se basta com a mera percepção sensória da realidade. Para ele é fundamental e vital compreender o mundo em sua completude, do simples ao complexo, do ínfimo ao extraordinário, do finito ao infinito, do tempo à eternidade.

   Há uma permanente inquietação no homem que o faz burilar, perscrutar, investigar, questionar, vasculhar o mundo à sua volta. Desde os primeiros lampejos de sua individualidade se vê cativo de constante voz que o atrai para divagações implicadas em descobrir a causa das coisas, o porquê destas existirem. Antes mesmo de assenhorar-se da própria vontade tem sua atenção atraída de tal maneira angustiante que, involuntariamente, é impelido ao encontro da essência da realidade pelos meandros do pensamento. Os semelhantes se reconhecem e se atraem, daí o espanto e a admiração do homem em face do mundo, pressentindo o ser das coisas, pois ele próprio é e carece do contato com aquilo que sustenta e dá formas aos fenômenos que constituem a existência.


   Em toda experiência sensível busca-se o todo inteligível, quer dizer, ao passo que o corpo percebe o objeto através dos sentidos, o pensamento interage com o percepto sob o enfoque da inteligência. As faculdades sensórias não oferecem confiabilidade suficiente para saciar a necessidade da busca pelo mais real da realidade. Elas são importantes para as questões mais imediatas, concernentes aos problemas mais rasos e superficiais da existência. No entanto, não alcançam “regiões” do ser mais profundas, limitando o homem aos aspectos superficiais ou periféricos da realidade. Pelos sentidos o homem percebe e experimenta o mundo em suas características, aspectos e complexidades. Embora isso já seja de grande valia para absorção de conhecimento, não atinge o cerne dos fenômenos. Só pelo pensamento é possível "tocar" o todo pela parte e vislumbrar o infinito a partir do finito.

   O homem aprende a pensar pensando, e todo esforço do pensamento é de lançar luz àquilo que está obscuro à razão. Consequentemente, à medida que traduz o implícito em idéias, mais o homem amadurece a consciência do seu ser. Assim, ao passo que seu conhecimento acerca da infinitude se expande, mais sua finitude é evidenciada e as possibilidades de conhecimento ampliadas.

    Motivo de grande inquietação para os homens, a impermanência oculta sob as aparências fugidias de seus fenômenos a força que a produz e a sustenta. Por exemplo, dia e noite, calor e frio, claridade e escuridão refletem aspectos opostos, embora equivalentes em essência. Um não existe sem o outro, como lados de uma mesma moeda. Em outras palavras, são fenômenos que surgem a partir da variação de um mesmo elemento causal, a saber, respectivamente: movimento de rotação do planeta, temperatura e luz. Neste sentido, o aparente e o inaparente - o sensível e o inteligível - trazem em si mesmos a carga substancial da causa que os produziram. Essa causa seria a substância ao mesmo tempo imanente e transcendente, que recolhe e extrai em si mesma as realidades sensível e inteligível.

   A busca pelo ser é uma jornada infinita, e o infinito é realmente tentador. As possibilidades oferecidas pela realidade arrebatam o ser humano de tal modo que ele se vê incapaz de resistir ao chamado da razão (sua alma) que investe em pensamentos em demanda do conhecimento.

   No mundo relativo das aparências, o Absoluto é velado pela impermanência das coisas, mas é revelado pela imutabilidade das leis que regem os fenômenos objetivos. A razão não pode negar que os mecanismos naturais (relativos à materialidade) interagem de forma harmônica e inteligente. Nenhum efeito inteligente provém de uma causa aleatória, logo, é lícito dizer que há uma ordem intrínseca ao mundo sensível a qual dirige e mantém todos os fenômenos inerentes à realidade objetiva. Pelo fluxo do devir é possível intuir a infinitude dos processos finitos, pois o próprio fluxo pressupõe constância, continuidade. Em outras palavras, o fluir, extrinsecamente, é impermanente; mas, intrinsecamente, carrega seu ser imutável, analogamente ao oceano em cuja superfície há turbulência, ao passo que nas profundezas o silêncio denota repouso . Dito isto, fica mais claro entender como os mundos sensível e inteligível são um só, ambos são "água" e "oceano", o razo e o profundo em perfeita unidade.

   Do sensível ao inteligível, dois mundos que o ser do homem toca biológica e racionalmente. Com os sentidos ele percebe e experimenta a natureza visível, com a razão vai além, vislumbra as causas, idealiza e "toca" o Todo.

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